domingo, 10 de junho de 2012

Caipira


CAIPIRA

Caipira é uma denominação tipicamente paulista. Nascida da primeira miscigenação entre o branco e o índio. "Kaai 'pira" na língua indígena significa, o que vive afastado, ("Kaa"-mato ) ( "Pir" corta mata ) e ( "pira"- peixe). Também o cateretê, inicialmente uma dança religiosa indígena, na qual os Índios batiam palmas, seguindo o ritmo da batida dos pés, deu origem a "catira". A catira passou a ser um costume de caboclos, antigamente chamados de "cabolocos". Com o avanço dos brancos em direção ao Mato Grosso e Paraná a cultura caipira foi junto, levada principalmente pelos tropeiros. Hoje o termo "Caipira" generalizou-se sendo para o citadino uma figura estereotipada. Mas esse ser escorregadio e desconfiado por natureza, resiste às imposições vindas de fora. Tem uma espécie de cultura independente, como a dos Índios. Infelizmente alguns intelectuais passaram de modo errôneo a imagem do caipira. Hoje as festas "caipiras" que se encontram nas cidades e nas escolas não passam de caricaturas de uma realidade maior. Foi criada uma deturpação do que o povo brasileiro possui de mais profundo e encantador em suas raízes. "A primeira mistura", a pedra fundamental. O falar errado do caipira não é proposital. Permanecendo ele afastado das cidades, mantém no seu dialeto, muito conhecimento, que o homem da cidade já perdeu, com sua prosperidade aparente. O caipira conhece as horas apenas olhando para o céu e vendo a posição do sol. Sabe se no dia seguinte virá chuva ou não, pois conhece a fundo o mundo natural. Tem um chá para cada doença, uma simpatia para cada tristeza... Para o citadino o caipira virou motivo de divertimento, quando deveria ser o exemplo de amor à terra. Do antepassado Índio ele herdou a familiaridade com a mata, o faro na caça, a arte das ervas, o encantamento das lendas. Do branco a língua , costumes, crenças e a viola, que acabou sendo um dos símbolos de sua resistência pacífica. Muitos são os ritmos executados na viola, da valsa ao cateretê. Temos Cateretê baião; Chula polca; Toada de reis: Cateretê- batuque, Landú, Toada; Pagode, etc. Apesar de parecer um homem rústico, de evolução lenta, nas suas mãos calejadas ,ele mantém o equilíbrio e a poesia da fusão duas etnias. E traduz seu sentimento acompanhado da viola, companheira do peito, onde canta suas esperanças, tristezas e as belezas do nosso país. A música rural, criativa , contrapõe-se aos modismos vindos do exterior. Ainda é uma forma resistente de brasilidade, feita por um do povo que conhece muito o chão do nosso país. Hoje estão querendo fazer uma fusão cultural, a do "caipira" com o "country" americano. O que se vê, é gente fantasiada de "cowboy", mas que não sabe sequer em qual fase da lua estamos...

A MARCA DO CAIPIRA
(Orlando Batista dos Santos)
Cornélio Pires foi quem melhor definiu o jeito caipira de ser. Levando em conta as origens, como o indígena brasileiro, a contribuição do negro trazido da África, a combinação com a cultura européia, especialmente a portuguesa e depois a italiana, tudo isso acabou por formar a amálgama cultural específica do povo brasileiro: na culinária, na arte, na dança, na música e claro, no vocabulário rico e despojado à margem da língua oficial, a portuguesa.
A origem do termo remete-nos a pensar o caipira como o homem do mato, do campo, arredio e avesso ao progresso. Mas os tempos mudam, e lá está o caipira disputando espaços nas cidades; nas fábricas, no comércio e nas universidades, revelando sua competência. Quando precisam cumprir as convenções sociais, abraçam as etiquetas com fino rigor, tão fino que às vezes é impossível não imprimir certa dose de exagero, o que acaba por denunciar suas origens.  Sossego e fartura, eis o que o caipira mais almeja. Mas se for necessário entrar na correria por uma causa justa, ele está pronto. Pode ser, mas, melhor não. Após cumprir suas obrigações para com a sociedade, volta ao acalento de suas raízes.   
Para o caipira, a vida precisa ser saboreada em seus mínimos detalhes: na prosa boa e demorada com seus interlocutores, no apreciar dos elementos da natureza que lhes passam às vistas, no degustar da velha e boa comida feita com a mesma e tradicional receita, no apego às velhas fórmulas para resolver velhos e novos problemas e, claro, festas, porque ninguém é de ferro.
O caipira não troca o certo pelo duvidoso e desconfia muito das novas tecnologias, até que estas se revelem definitivamente indispensáveis. Sem pretensão de santidade, mostra-se extremamente apegado aos aspectos de sua religiosidade. Sem ser revolucionário, tem sempre um deboche na ponta da língua quando o assunto é política.O zelo pelas tradições é outra característica do caipira. Não que viva apenas das glórias do passado ou tenha medo do futuro apegando-se nostalgicamente ao que não volta mais.  Esta característica é uma sábia e providencial resposta de sua alma, sem a qual, as ameaças de massificações culturais estéreis, ou tão somente mercantilistas destruiriam o GENE DA CULTURA BRASILEIRA. Graças ao caipira, isto não vai acontecer! Mas, a verdadeira marca do caipira é sua capacidade para simplificar. São os “ataios”, soluções indispensáveis para a manutenção de seu bem-estar, especialmente quanto à linguagem. Para quê gastar tanto esforço na pronúncia “eucalipto”, se basta dizer “calipe, acalipe, calipar”? O falar caipira revela, a despeito dos justos argumentos dos defensores da língua pura, apenas e tão somente o jeito mais fácil de se comunicar. Comunicação, por sinal, direta, objetiva e pessoal, porque certamente não existem meios mais eficazes para se transmitir uma mensagem, e isto o caipira sabe muito bem fazer. Caipira é sinônimo de Brasil. Viva o caipira !  

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