terça-feira, 12 de junho de 2012

ARTIGO: Gêneros Textuais na Era do Conhecimento


ARTIGO: Gêneros Textuais na Era do Conhecimento

Ana Carina Kucharski
Universidade Cidade de São Paulo


RESUMO: O texto social que atualmente conecta as pessoas está provocando muitas inquietações, não pelo conteúdo, mas pelo modelo dos gêneros textuais utilizados. Através de pesquisas e entrevistas com professores, alunos e comunidade em geral, este artigo encontrou algumas informações pertinentes às novas modalidades de discurso oral e escrito. O reflexo destas novas ferramentas de comunicação nas relações sociais formais e informais e da constante necessidade de conhecer, usar e apropriar-se dos novos gêneros conforme forem surgindo nas redes sociais virtuais e presenciais são situações tratadas neste artigo.

PALAVRAS-CHAVE: Gêneros textuais, discurso, redes sociais, comunicação.

1. A comunicação interpessoal como um organismo vivo

Desde a Revolução Industrial, as mudanças tornaram o mundo mais rápido assim como o desenvolvimento cultural. Em Maruschi (2000:10) “uma tecnologia projeta estratégias de textualização, gera um novo gênero e subverte, até certo ponto, cânones bem estabelecidos no processo de construção textual...” constatamos que não só nasce uma nova forma de comunicação, bem como ela tem uma dinâmica própria e independente.
A dinâmica virtual incorpora ao cotidiano não só da comunidade escolar, mas de toda a sociedade, novos tipos de textos orais e escritos. Conforme cita Maruschi (2002): “os gêneros textuais não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação criativa dos usuários da língua.” Por isso a necessidade de identificar, conhecer e entender como funcionam esses discursos, uma vez que tudo está conectado – contexto social, cultural, tecnológico e virtual.
“Produzir linguagem significa produzir discursos. Significa dizer alguma coisa para alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico. Isso significa que as escolhas feitas ao dizer, ao produzir um discurso, não são aleatórias – ainda que possam ser inconscientes -, mas decorrentes das condições em que esse discurso é realizado”.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental.
Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais –
1ª a 4ª séries. V. 2 p. 22

Assim, para apresentar da forma mais objetiva possível, este artigo mencionará os alguns dos gêneros textuais mais usados no momento, bem como sua relação social no meio pedagógico e social, uma vez que para os educadores, torna-se cada vez mais difícil conscientizar o alunado da função específica de cada um e também de evitar os vícios de linguagem que algumas dessas ferramentas trazem para seus usuários tanto dentro quanto fora do ambiente escolar.
O impacto da tecnologia na Era do Conhecimento modificou até a maneira de pensar do homem desta sociedade, como podemos ler nas palavras de Fernández (1998:14): “Quem tiver a informação, e souber utilizar a tecnologia para utilizá-la e explora-lá, poderá produzir mais e consequentemente ser mais competitivo. Esse simples fato, que em outros momentos significaria uma vantagem limitada, neste momento, ao final e começo de um ciclo, com uma economia globalizada, que, por sua vez, torna possível também as novas tecnologias da informação e da comunicação, nesses momentos, dizíamos, esse simples fato muda o panorama econômico do mundo, condiciona e reorienta o futuro das pessoas, de seu trabalho, das formas de se relacionarem, de se distraírem ou de se divertirem. Definitivamente, mudam as bases materiais de nossas vidas e, em conseqüência, muda a sociedade. 1   (tradução da autora).
            Como consequência desta mudança social e cultural, surge a conexão entre as pessoas em toda e qualquer parte do planeta e em qualquer horário. Conectam-se através das ferramentas da internet para qualquer atividade formal ou informal, desde troca de recados até negócios e reuniões virtuais. Essa nova maneira de produzir informações gera uma nova modalidade de comunicação: a terciária (cf. Palma, 2002: 115), levando a novos gêneros textuais. Assim, a tecnologia, tem produzido novos gêneros que caracterizam a chamada e-comunicação (cf. Marcuschi, 2004:13).
            Toda esta nova relação entre indivíduo e tecnologia leva ao uso contínuo da Internet como meio essencial na relação, podendo tornar o usuário dependente e causar danos irreparáveis a crianças, adolescente e até adultos, como a reclusão.
1Quien tenga la información, la tecnologia y el domínio de la misma para utilizar y explotar aquélla, podrá producir más y en consencuencia ser más competitivo. Este simple hecho que en otros momentos hubiera significado una ventaja limitada, en estos momentos, a finales y principio de siglo, con una economía globalizada, que a su vez hacen posible también las nuevas tecnologias de la información, en estos momentos, decíamos ese simple hecho cambia el panorama econômico del mundo, condiciona y reorienta el futuro de las personas, de su trabajo, de las formas de relacionarse, de distraerse o de divertirse. En definitiva, cambian las bases materiales de nuestras vidas y en consecuencia cambia la sociedad. 

            Marcuschi (2004:14), apoiado em Crystal, chama a atenção para a participação indefinida nos bate-papos em salas abertas, vista como uma atividade que se parece com um enorme jogo maluco sem fim ou, então, assemelha-se a uma “festa lingüística” (linguistic party) para onde levamos nossa “língua” ao invés de nossa bebida.
2. A integração e a reação linguística
         “O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção de recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua, elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso.”
(BAKHTIN, M. M. Ao gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal (Trad. Paulo Bezerra). 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261-262)

            Conforme o Censo de 2011, o Brasil atingiu 79,9 milhões de internautas no quarto trimestre. Esta realidade mostra que com o aumento de usuários, os custos para acesso aos equipamentos e às redes têm diminuído. Motivo este que permitiu a ampliação do número de usuários e consequentemente da comunicação entre eles, influenciando diretamente as alterações linguísticas gradativamente, conforme Xavier (2002) já mencionava. Assim, novos textos foram aparecendo, como forma de expressão a partir de aplicativos criados e distribuídos gratuitamente na internet. O brasileiro é o campeão mundial em tempo conectado, é o que fica mais tempo navegando. Um dos motivos é que grande parte destes navegadores são adolescentes que só podem sair uma vez por semana e então estendem sua vida social através das redes, conforme pesquisa da antropóloga americana Anne Kirah, contratada pela Microsoft para analisar os internautas, em 2007.
            As redes sociais, responsáveis pelo maior número de usuários, fortificaram o hábito e também a escrita. Surge então o que hoje chamamos de “internetês”(Othero;2002). Que para Faraco (2007, p.17) é mais uma solução do que um problema, se visto como uma alternativa para agilizar a escrita, uma vez que a velocidade da fala não acompanha a da mão. Este movimento de modernização da língua, numa escala mundial, nos mostra que a linguagem é uma forma de interação entre os sujeitos. Benveniste (1995): “É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito”.  Levy (1956): “Os coletivos cosmopolitas compostos de indivíduos, instituições e técnicas não são somente meios ou ambientes para o pensamento, mas sim seus verdadeiros sujeitos”. O cantor Gilberto Gil compôs letra e música “Pela internet” (1997), onde O compositor baiano faz referências tecnológicas em relação à internet, uma analogia ao primeiro samba gravado no Brasil em 1917 (Pelo Telefone) de Donga. Gilberto Gil defendeu a internet como principal agente na construção do comportamento contemporâneo.
            Também menciona-se o “Letramento Digital” (Xavier 2005). Muitos professores comentam que há alunos que chegam na escola lendo as “gírias” e as imagens (emoticons) do MSN, pois acompanham em casa com os pais e irmãos.  Então, mesmo antes da escola, eles já possuem vocabulário escrito e conseguem ler estas palavras em diferentes ambientes por associação. Já os alunos maiores, usuários assíduos das redes sociais, estão assimilando novas expressões e escrevem, até involuntariamente, nos textos e enunciados escolares. Vários estudantes assumem que gostam de usar as mesmas formas na escola e outros admitem que não sentem quando estão usando, somente na releitura (e nem sempre) que conseguem notar e corrigir.
            Porém, há um fato marcante em todo este contexto: a realidade dos professores diante das mídias. Muitos profissionais ainda relutam em associar-se ao mundo virtual. Ainda existem aqueles que não usam, não sabem e não têm interesse em aprender. Há os que têm dificuldades e não têm muito tempo e seu desenvolvimento é lento e precário em vista daquele que os alunos apresentam. Mesmo assim, não admitem aprender com os alunos.
            Outro grupo de professores são usuários tão assíduos quanto os alunos. Alguns até ousam comunicarem-se com os alunos, mantendo certo cuidado para não deixar tudo íntimo de mais. Eles acreditam que não há como negar, retroceder, separar ou ignorar tal situação. Tudo está conectado o tempo todo. Os alunos sofreram uma invasão de tecnologia e agora não é possível exigir deles que separem o que é da escola e o que não é. Até porque a escola como uma entidade formadora, uma parte da vida do aluno, é também responsável por esta formação virtual.
            Levy (1956) já estudava este comportamento e escreveu:
“Em um contexto de formação, os hipertextos deveriam portanto favorecer, de várias maneiras, um domínio mais rápido e mais fácil da matéria do que através do audiovisual clássico ou do suporte impresso habitual.
O hipertexto ou a multimídia interativa adéquam-se particularmente aos usos educativos. É bem conhecido o papel fundamental do envolvimento pessoal do aluno no processo de aprendizagem. (...) Ora, a multimídia interativa, graças à sua dimensão reticular ou não linear, favorece uma atitude exploratória, ou mesmo lúdica, face ao material a ser assimilado. É, portanto, um instrumento bem adaptado a uma pedagogia ativa”.

            Diante de tal apontamento e da data em que foi feito, é fato que o corpo docente realmente não encarou como deveria o desenvolvimento tecnológico e a era digital. Após várias entrevistas a professores, coordenadores, diretores e monitores,  a maioria (79%) informa não ter feito curso especializado para aprender as ferramentas da informática. De um total de 200 entrevistados, 88% reconhece que hoje esta formação faz falta e que o desempenho em sala de aula seria diferente se eles dominassem algumas ferramentas desde sua época de faculdade.
            O governo brasileiro, conhecendo tal fato, desenvolveu em 1997, o PROINFO (Programa Nacional de Informática na Educação) com o objetivo de melhorar a educação através das novas tecnologias na construção do conhecimento. Através deste programa, as escolas recebem equipamentos e softwares educacionais pelo governo federal e os estados e municípios devem proporcionar a instalação e o ambiente para uso coletivo. Implantou os NTEs (Núcleos de Tecnologia Educacional) onde os professores recebem orientação e até treinamento para a utilização das mídias.  E outros cursos foram disponibilizados através da Plataforma Freire, de acordo com cada região do país. Mas isso não basta. Para mudar este quadro, para produzir resultados satisfatórios para a comunidade escolar e social como um todo, precisamos neste lado da situação convencer os professores que deve acontecer um engajamento, uma adesão pessoal e profissional aos novos rumos dos textos, aos outros tipos de fala e de escrita que estão permeando a vida das pessoas desta geração e que continuarão a aparecer e desaparecer com tanta rapidez que talvez algumas nem se tenha conhecido ou usado e já esteja sendo tratada como obsoleta.
            Entre os alunos, de 200 alunos entrevistados (6º ao 9º ano) 66% utilizam diariamente a internet e no Ensino Médio o nível é mais alto chegando a 94%. Eles ainda comentam que o aprendizado de tudo foi muito fácil e que na maioria das vezes os amigos que explicam como funciona para que assim possam se comunicar.
            Segundo Chartier (1994, p. 7): “A revolução do nosso presente é mais importante do que a de Gutemberg. Ela não somente modifica a técnica de reprodução de texto, mas também as estruturas e as próprias formas do suporte que o comunica a seus leitores”.
            Porém, toda esta mudança não traz só inquietações no sentido da comunicação. Ela impera também na questão do entendimento, da aceitação ou não, da complementação da informação. De todos os docentes entrevistados, 38% afirmam que muitas vezes não são capazes de entender na primeira leitura o texto disponível, a não ser que já saibam algo sobre o assunto. Caso contrário, imediatamente pesquisam para poderem continuar. Já para os alunos, a dificuldade é ainda maior: 82% dos alunos afirmaram que muitas vezes trocaram de notícia ou passaram aos amigos perguntando do que se tratava por não ter conhecimento sobre o fato. Chegamos a um ponto importante – o entendimento. Mesmo que a informação e a comunicação estejam ao alcance de muitos, é comprovado que os indivíduos mesmo conectados precisam fazer associações e relações a fim de chegar a um entendimento da situação. Salienta-se então Cláudio Weber Abramo:
“Uma das graves pragas modernas é a crença na informação. Vemo-la em plena atividade, por exemplo, nas resmas de papel dedicadas à chegada da internet ao Brasil. A impressão é que, agora sim, saberemos tudo sobre tudo: o conhecimento ready-made nas pontas dos dedos. (...) A partir da constatação de que tais fatos ocorrem, passa-se a afirmar que o grande volume de informações disponíveis em veículos que estariam em princípio ao alcance de qualquer indivíduo representa a democratização do conhecimento e, portanto, estímulo decisivo ao desenvolvimento da cidadania, à mitigação das desigualdades sociais e assim por diante, abrindo nova era de progresso para a humanidade. (ABRAMO, 1995, p.3)

               Pontuando tais índices, surge a reflexão: independente da tecnologia que se usa ou que se oferece aos alunos, o beneficio real somente acontecerá quando for  provada a real aplicação do que foi mostrado ou lido através das mídias. É preciso entender que a era do conhecimento busca usar as novas ferramentas para proporcionar novas formas de conhecimento e informações, colaborando assim para a evolução do pensamento humano.
               Atualmente, os sites mais usados pelos entrevistados (alunos e professores) são o Facebook e o Twitter.  Eles utilizam diferentes maneiras de apresentar suas postagens. O Facebook permite expor textos de todos os tamanhos e imagens. Já o Twitter utiliza um texto com tamanho máximo de 140 caracteres. Este dado apresenta a diferença básica no uso das duas ferramentas. Os usuários adaptam-se rapidamente e até usam simultaneamente. Antes do sucesso mundial do Facebook, o Orkut era a sensação. Tinha uma aparência mais individual e agora já é tratado como “falecido”. Esta é a realidade dos aplicativos virtuais – seu uso também tem prazo de validade. 
               Analisando os textos postados no Facebook, pode-se encontrar desde recados até poemas da Literatura Clássica. Pode-se assistir vídeos, cujos links estão disponíveis e ver álbuns de fotos dos amigos. Aliado a tudo isto, está o bate-papo, bastando apenas clicar no nome do destinatário para começar a conversa. Se partirmos da afirmação de Bronkart (1999:73) que “qualquer espécie de texto pode atualmente ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado gênero.” Por isso, o espaço do Facebook mostra uma riqueza imensa de textos onde as informações são atualizadas rapidamente e aparecem nas mais diversas modalidades, desde textos tradicionais, poemas, imagens com emoticons e memes até fotos e montagens. Como há uma interatividade nesta rede, há necessidade de conhecimento, agilidade mental e domínio das ferramentas de uso para que o leitor possa também interagir respondendo, comentando, e até postando novas mensagens ou imagens.
               No caso do Twitter, acontece a troca imediata de mensagens e links que ficam à disposição, soa quase como uma conversa on-line onde vários estão conectados sem ter necessariamente uma relação direta. Na visão dos internautas adolescentes, esta liberdade proporciona um entrosamento muito bom e divertido. Além do mais, muitas imagens remetem a notícias, fazendo que o leitor procure informações para entender o que foi postado. Ser usuário não basta, é preciso estar inserido no mundo real através do mundo virtual.
               Diferente do MSN, onde as pessoas precisam estar diretamente relacionadas para conversarem e podem produzir textos do tamanho que desejarem e ao mesmo tempo enviarem fotos que não geram links, servem para baixar no computador de destino e somem ao final da conversa. É mais limitado nas relações e na produção textual, uma vez que não há uma integração total, é preciso convidar os parceiros de conversa e eles precisam aceitar para ter uma resposta. Em 2009, o Brasil já tinha 500 milhões de usuários trocando mensagens no MSN.
               Saindo de toda esta ciranda comunicativa e cultural, entramos num dos textos mais usados no mundo, através dos computadores – e-mail. Este gênero, em 2004 foi considerado por Paiva como uma ferramenta que propiciava o envio de sons e imagens rapidamente. Associou vantagens a ele como a de enviar textos de qualquer tipo para várias pessoas ao mesmo tempo. Maruschi (2005) já comparou-o a bilhetes e cartas, pela estrutura e tamanho do texto. Junto com o uso intenso do e-mail, desenvolveram-se algumas regras para que uma padronização pudesse ser respeitada pelos usuários, a fim de evitar problemas na interpretação das mensagens. São as chamadas Netiquetas – regras de escrita para textos na internet.
               Já foram abordados quatro tipos de textos virtuais com dinâmicas diferentes, que utilizam alguns recursos em comum. São eles: emoticons (smileys) feitos com imagens ou com caracteres tipográficos (:D – sorriso grande), links, acrônimos e pontuação, letras maiúsculas e minúsculas, etc. Cada um deles possui vida própria e pode ser utilizado simultaneamente com os outros, incluindo os mesmos usuários. Tal situação nos mostra o poder da rede nas atividades e nas relações. E diante disto pode-se constatar que inúmeras pessoas de diferentes idades, com diferentes níveis culturais conseguem aprender e usar sozinhos todos os aplicativos citados acima, bastando para a maioria apenas assistir uma ou duas vezes e depois sozinho, já em rede, ir perguntando aos outros usuários e eliminando suas dúvidas.
            No meio de toda esta diversidade, temos a vida profissional. Nas empresas, a vida segue conectada. Em muitas situações, acontece até a proibição do uso das redes sociais, bloqueando os programas. A necessidade do uso constante faz que os funcionários misturem as situações privadas na hora do trabalho. Dos 20 empresários entrevistados (empresas de pequeno e médio porte), 18 mencionaram não concordarem com o uso particular durante as horas de trabalho. Eles acreditam que alguns funcionários não realizam suas atividades com eficiência colocando-as em primeiro lugar. Alguns constataram o funcionário deixando as atividades esperando enquanto finalizavam uma conversa. Mas ao mesmo tempo, admitem que é uma situação inevitável e que em pouco tempo não haverá como bloquear tudo, até porque em alguns casos, a empresa também é beneficiada com a comunicação do MSN e a circulação nas redes.  Já nas grandes empresas, acontece o bloqueio em alguns casos e em outros, a própria empresa desenvolve um similar ao MSN para conversas internas e entre filiais, para diminuir custos de comunicação e agilizar a troca de informações.  Foram 20 empresas de grande porte visitadas e uma minoria de funcionários não usavam as redes sociais na hora do trabalho. Os mais “dependentes” mantinham o celular conectado e muito discretamente trocavam mensagens particulares. As regras são claras e devem ser cumpridas. Por isso comentam que o bloqueio nem sempre é necessário quando o funcionário entende que há hora para cada coisa e que ele deve mostrar responsabilidade e coerência em suas atividades profissionais. Comentam que o acesso à internet é fundamental para o trabalho. Charlene Li, fundadora do Altimeter Group, em sua entrevista para a revista Isto é Dinheiro em 05.03.2010 já sinalizava para a necessidade das empresas estarem conectadas às redes como forma de sobrevivência, atualização e canalização de informações comerciais. "Não subestimem as redes sociais".
            Estamos diante de um novo formato de receber e transmitir informação. As pessoas estão tão acostumadas com as redes que esta dependência, às vezes até prejudica a vida pessoal e profissional.  A dependência do celular, do computador, da Internet aumenta a cada dia, até em função de algumas ocupações que exigem o uso deles. Para aqueles que apenas são usuários e tornaram-se dependentes, consideram vícios socialmente aceitos, mas igualmente nocivos por afetarem o comportamento individual e social. Alguns especialistas associam as novas tecnologias a comportamentos impulsivos, ansiosos e até esquecidos. Cabe aqui ainda muitos estudos acerca dos problemas que resultam desse processo tecnológico. Mas um deles já tem nome: Nomofobia.  Segundo o site Elo: “É uma fobia ou sensação de angústia que surge quando alguém se sente impossibilitado de se comunicar ou se vê incontatável estando em algum lugar sem seu aparelho de celular. É um termo muito recente, que se origina do inglês: No-Mo, ou No-Mobile,que significa Sem celular. Daí a expressão Nomofobia ou fobia de ficar sem um aparelho de comunicação móvel.”  Claro que toda inovação sempre deve ser analisada nos aspectos positivos e negativos. Devido ao comportamento de muitas pessoas e das observações feitas, pode-se dizer que a Nomofobia está relacionada não só ao celular mas às outras tecnologias que permitem a conexão.

3. A escolarização dos novos gêneros
                                           
            Se os especialistas já avisam que a vida comercial não pode seguir sem conectar-se, é preciso trabalhar desde cedo, na escola, para que os usuários consigam adaptar-se a todos os ambientes, usando-os da maneira mais proveitosa e correta possível, evitando assim até a dependência.
            Acima de qualquer dado mencionado até agora está a leitura. Indiscutivelmente pode-se dizer que todo usuário das redes lê muito. E sua leitura é tão diversificada e rica que deve ser valorizada. Não se consegue imaginar que num dia, os alunos de ensino médio teriam acesso a tantos textos e imagens para “curtir” se não fosse a tela das redes e suas postagens. Mas se há tanta leitura, pergunta-se por que os alunos têm baixos índices de rendimento e dizem não gostar de ler? Nesta situação que entra a cultura digital. Os estudantes precisam ser orientados a ler e interpretar cada texto, cada imagem. Devem ser levados a questionar, responder, criticar, opinar sobre o que estão vendo e lendo. Há uma grande preocupação por parte de pais e professores em relação à formação intelectual das crianças e adolescentes. Eles acreditam que a leitura é a porta para o desenvolvimento sócio-comunicativo e intelectual das pessoas. Sugerem que a leitura seja variada desde a infância para criar um vinculo e um hábito, proporcionando a preferência diante do conhecimento de vários gêneros. Essa diversidade de suportes vai ampliar a experiência de leitura destes aprendizes que já estão em contato com o mundo digital desde o nascimento e na escola começam a sua relação como o mundo do papel. O momento de transição do papel (analógico) para a tela (digital), permite-lhes experimentar a simultaneidade de semioses e vivenciam a clipagem das linguagens. Neste momento de troca, onde acontece o processo de alfabetização deve-se dar uma grande importância para todas as mídias. O professor precisa encarar a realidade virtual que o aluno conhece como aliada na sua aprendizagem. Mesmo que existam alunos carentes, sem acesso às redes, eles não estão desconectados. Conhecem, tem curiosidade e devem ser inseridos neste contexto justamente para poder acompanhar os outros já bem acostumados com o ambiente digital.
            A Internet é um local que tem como base a liberdade de expressão e seu espaço produz predominantemente a linguagem escrita. No caso das redes sociais, há a produção de um texto verbal na forma escrita, o que gera o vocabulário próprio dos usuários. Independente deste vocabulário, cabe aos educadores mostrar aos aprendizes, em qualquer idade escolar, os caminhos que levam ao conhecimento verdadeiro. Como selecionar, como decifrar, como interpretar tudo que a rede virtual oferece de apenas um assunto pesquisado. É neste momento que a educação torna-se fundamental na relação com a era digital. Falar na Era do Conhecimento é estar com tudo à disposição para aprender o que quiser. Falta apenas saber como fazer. Esta orientação, infelizmente não é algo que se possa receber por e-mail ou assistir em vídeo no You Tube. Independente do grande número de informações disponibilizadas a todo instante, ainda temos carência de cultura global. Ainda temos analfabetos funcionais em toda a parte, incluindo nos países desenvolvidos. Umberto Eco, em uma entrevista a Luis Giron em 03/01/2012 responde:
 “Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?
U.E.– Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.”
(Observatório da Imprensa, 01/05/2012)


                É preciso mudar este futuro. Não se pode permitir que este pensamento se concretize, aproveitando a dica de um sábio escritor. Se realmente o professor é parte fundamental no processo de ensino-aprendizagem, é assim que fará sua essencial participação. Mas só poderá acontecer se ele, como membro orientador tiver conhecimento e base para guiar seus alunos. Se aceitar a educação com mídias, se envolver-se nas redes e souber separar o joio do trigo para ensinar seus aprendizes. Por considerar a língua como um organismo vivo e social, entende-se a sua renovação, transformação e ampliação como um produto da criatividade humana em constante evolução. Os novos contextos sociais criam os novos gêneros textuais, que têm a função de atender as diversidades culturais, reflexo da pluralidade de ambientes que interagem no mundo globalizado. Partindo da ideia: "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." (Lavoisier) deve-se aceitar a criação de novos gêneros textuais e utilização de novas convenções de escrita para subsidiar a linguagem oral nas redes. Há também que identificar a relação entre os gêneros antigos (carta, bilhete, diário, reuniões presenciais) com os modernos (chat, e-mail, twitter, blog, videoconferências) e promovê-los como formas de interação.
            Outro ponto a ser comentado é que toda esta leitura de mundo que o usuário das redes faz diariamente, todos os comentários que ele escreve, idéias que troca  ou contesta fomentam seu vocabulário e suas opiniões passam a modificar-se e nos gêneros discursivos certamente haverá uma mudança também. Todas as conversas formais ou informais serão alimentadas pelas informações absorvidas na internet. Invadindo um pouco a modéstia, pode-se dizer, que até nas respostas subjetivas das provas, os alunos conseguem desenvolver melhor suas colocações por já terem praticado tal exercício na relação virtual.
            Não é preciso abandonar as normas cultas de escrita, nem esquecer das conjugações verbais. É necessário entender que as transformações e as novas tecnologias estão por toda a parte e devem ajudar a todos, seja empresário, pais, filhos, professores, consumidores, profissionais de todas as ordens, cada hora no seu papel social. E todos devem conscientizar-se que a evolução não vai parar e que o hoje já é passado em vista de algumas situações. Estar conectado agora é estar vivo para receber o amanhã, entendê-lo e participar ativamente dele. Deve-se buscar o aluno como criador de seus textos, sujeitos de seu mundo, motivado a interagir junto com seus colegas, professores, família, amigos, etc. O professor deve deixar de ser apenas um intermediário entre o conceito e a prática. Só corrigir não educa. Deve participar junto com o aluno, incentivando-o sempre que possível a criar mais e a pesquisar para melhorar o que está pronto.
            Novos gêneros ainda surgirão, assim como novas redes. Segundo Juliano Procópio, (@julianoprocopio), estudante de web design pela universidade Unitau, outra rede social dominará o mercado no futuro. “Creio  que deva surgir outra, já foi Orkut e Twitter. Hoje é Facebook, amanhã será Google+ e deve surgir outra, com certeza.” A sociedade da era conhecimento conhecerá os caminhos a seguir para chegar ao sucesso no mundo virtual, desde que confie em sua capacidade intelectual e busque o entendimento das coisas, pesquisando, perguntando, criticando, interferindo e produzindo seus conceitos. Isto é produzir conhecimento. Saber o quê, quando, onde e por quê. Saber o endereço das respostas, ou pelo menos o caminho para procurá-las.

4. Referências
BENVENISTE,Émile. Problemas de linguística geral I. 4 ed. Campinas: Pontes/Edit. Da Unicamp, 1995, pág. 286

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FARACO, C.A. O internetês e a constante mutação da língua portuguesa. In: Notícias da UFPR. Curitiba: UFPR, abril/2007, ano 7, nº 40, p.16-17.

FERNÁDEZ, F. A.(1998). La Sociedad de la Información – Vivir en el siglo XX. Madrid: Acento Editorial.

LEVY, Pierre, 1956. As tecnologias da inteligência. Trad.  Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro. Ed. 34, 1993, (Coleção TRANS)

MARCUSCHI, Luiz Antônio (2002). Gêneros Textuais e atividades Lingüísticas no contexto da Tecnologia Digital. In: GEL – Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo. USP – Universidade de São Paulo, 23-25 de maio, 2002.
________________ (2004). “Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção do sentido (Luiz Antônio Marcuschi e Antônio Carlos Xavier – orgs.). Rio de Janeiro: Lucerna, p. 13-67.

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PALMA, D.V. (1998) “As Figuras de Pensamento do Eixo da oposição; recursos de linguagem ou processos cognitivos?” in A Leitura do Texto Poético e as Figuras de pensamento de Oposição: caminhos e descaminhos de paradigmas na modernidade. São Paulo. Tese de doutorado (Lingüística Aplicada) – Programa de Pós-graduação em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, p. 77-158.

XAVIER, Antonio Carlos dos Santos . Letramento Digital e Ensino. In: Carmi Ferraz Santos e Márcia Mendonça. (Org.).  Alfabetização e Letramento:  conceitos e
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BARRETO, Cintia. In: Gêneros Textuais. Disponível em: http://www.cintiabarreto.com.br/didatica/generostextuais   - acesso em 01/03/2012

 Reflexões sobre o contemporâneo  Gêneros Textuais  Disponível em : julcirocha.wordpress.com/2008/04/17/generos-textuais – acesso em 03/03/2012









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